Recentemente, tive o privilégio de poder assistir a uma peça de teatro encenada por Isabel Medina, denominada “Monólogos da Vagina”. Foi um espectáculo que tão cedo não esquecerei não só pela sua componente crítica e cómica mas principalmente, pelo seu contributo para o enriquecimento cultural de todos os presentes. Para além de a recomendar vivamente, quer a homens quer a mulheres, esta peça da autoria de Eve Ensler, e representada de forma brilhante por Ana Brito e Cunha, Guida Maria e São José Correia, trouxe-me não só mais conhecimentos acerca do complexo mundo feminino mas também, interessantes e importantes referências em relação ao tema do nosso trabalho. E como não poderia deixar de partilhá-las com vocês, aqui deixo um caso real retratado na peça.
O monólogo de que vos quero falar, remonta para o período de 1991-1995, durante a Guerra da Bósnia, em que entre 20 000 a 40 000 mulheres foram sistematicamente violadas sexualmente. Estas “violações em massa” como são conhecidas, foram realizados no leste da Bósnia maioritariamente pelas forças sérvias no entanto, e por incrível que pareça, também unidades bósnias contribuíram, em menor escala, para este massacre que via o sexo feminino como o principal alvo. Através do visionamento de algumas imagens que levaram ao choque de toda a assistência da peça de teatro, ficámos a saber que as violações sexuais envolviam objectos de tortura tais como, paus, cabos de vassoura, cabos de espingardas e até mesmo, garrafas.
As violações como arma de guerra assentam na desigualdade da relação de força, porque quando o soldado armado e em grupo encara uma mulher, o impulso sexual alia-se ao prazer político do poder absoluto sobre outra pessoa mais fraca.
A violação é, por excelência, o crime de profanação contra o corpo feminino e, através dele, contra toda a promessa de vida da comunidade no seu todo. Este tipo de casos pode ser definido, em termos antropológicos, como uma tentativa de invadir o espaço histórico do outro, num desejo de quebrar a continuidade de determinada espécie ou cultura, neste caso acabar com a hereditariedade bósnia. Em termos simbólicos e para os violadores, a violação sexual era o método mais pertinente de “purificação étnica” e de “limpeza”, por muito revoltante que possa soar.
No final de contas, o crime contra a filiação não quer a morte do inimigo, quer que este não tenha nascido.
E para vermos como a Justiça tarda em chegar, ainda hoje milhares das mulheres que foram violadas nessa altura vêem os responsáveis pelo seu sofrimento fora das grades ou sem uma única punição. Até agora, tem sido negada a justiça às sobreviventes destes crimes, já que as forças militares e os grupos paramilitares a que os violadores pertenciam, permanecem livres de qualquer acusação. Alguns até se mantêm, de acordo com Nicola Duckworth, Director do Programa da Europa e Ásia Central da Amnistia Internacional, em posições de chefia ou vivem na mesma comunidades que as vítimas.